Como é feito o tratamento da sífilis na gravidez?

Como é feito o tratamento da sífilis na gravidez?
Última revisão em:
13 de Fevereiro 2026
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    A sífilis na gravidez tem tratamento eficaz e, quando é feito atempadamente, reduz de forma marcada o risco de sífilis congénita. Na prática, o tratamento recomendado baseia-se em penicilina (em injeção), com o esquema ajustado ao estádio da infeção e com tratamento do(s) parceiro(s) para evitar reinfeção. O acompanhamento inclui controlo com análises e, em algumas situações, vigilância ecográfica do bebé. 

    O que significa ter sífilis durante a gravidez?

    A sífilis é uma infeção causada pela bactéria Treponema pallidum que pode ser transmitida por contacto sexual e, durante a gravidez, pode passar para o bebé através da placenta. Mesmo quando a grávida não tem sintomas, a infeção pode afetar a gestação, o que torna o rastreio pré-natal particularmente relevante.

    Do ponto de vista clínico, gostamos de esclarecer logo que há tratamento eficaz e a maioria das situações tem boa evolução quando o diagnóstico é feito cedo e o esquema é cumprido corretamente.

    Porque é tão importante tratar rapidamente?

    A sífilis pode causar complicações graves na gravidez e no recém-nascido, mas é uma infeção evitável e tratável quando identificada atempadamente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quando a grávida recebe tratamento adequado com penicilina benzatina no início da gravidez, o risco de desfechos adversos para o feto torna-se mínimo, idealmente antes do 2.º trimestre. 

    Também é importante ter noção do contexto epidemiológico: segundo o Relatório Epidemiológico Anual do ECDC (dados de 2023), Portugal teve uma taxa de notificação de 11,0 casos de sífilis por 100 000 habitantes. Isto reforça a importância de mantermos rastreio e prevenção ativos na gravidez, sobretudo quando existe risco acrescido. 

    Como é feito o rastreio e o diagnóstico na gravidez?

    Na vigilância da gravidez em Portugal, o rastreio da sífilis inclui, de forma geral, um teste não-treponémico (como VDRL) no 1.º e no 3.º trimestres. Se o VDRL for positivo, recomenda-se confirmação com um teste treponémico (por exemplo, TPHA ou FTA-ABS).

    Na prática clínica, avaliamos sempre:

    • O tipo de teste que veio positivo (treponémico vs. não-treponémico) e o respetivo “título” (quando aplicável);
    • Se há sinais / sintomas atuais ou história prévia de sífilis tratada;
    • O risco de exposição recente e a necessidade de testar e tratar parceiro(s).

    Um pormenor que faz diferença na gravidez: nem todos os resultados “positivos” significam infeção ativa no momento. Por exemplo, testes treponémicos podem manter-se positivos após infeção antiga tratada, e podem existir resultados discordantes que exigem confirmação e interpretação clínica (sobretudo para evitar tratamento desnecessário ou, pelo contrário, não perder uma infeção recente).

    Qual o tratamento de sífilis na gravidez?

    O tratamento de sífilis na gravidez é decidido após estadiamento clínico e serológico, mas a penicilina G é o único antibiótico com eficácia comprovada para tratar infeção fetal e prevenir sífilis congénita.

    Sífilis recente (primária, secundária ou latente precoce)

    Em regra, utilizamos penicilina benzatina por via intramuscular, no esquema recomendado para o estádio. Em grávidas com sífilis recente, existe evidência de que uma segunda dose (uma semana depois da primeira) pode ser benéfica para reduzir o risco fetal, em situações selecionadas.

    Sífilis latente tardia ou de duração desconhecida

    Nestes casos, o tratamento é feito com doses semanais de penicilina benzatina por várias semanas (tipicamente três). Aqui insistimos muito no cumprimento do calendário, porque atrasos relevantes entre doses podem obrigar a reiniciar o esquema completo na gravidez.

    Neurossífilis / sífilis ocular

    Quando há suspeita de envolvimento neurológico ou ocular, a abordagem é diferente e pode implicar penicilina endovenosa e orientação em contexto hospitalar, com articulação entre equipas.

    Como confirmamos que o tratamento resultou?

    Após o tratamento, o seguimento baseia-se em avaliação clínica e em análises de controlo, sobretudo testes não treponémicos (como RPR ou VDRL) para acompanhar a evolução do valor numérico (“título”) ao longo do tempo. Na gravidez, o calendário de reavaliação é adaptado à idade gestacional.

    De forma prática:

    • Quando o diagnóstico e o tratamento ocorrem até às 24 semanas, é habitual repetir a serologia cerca de 8 semanas depois e voltar a reavaliar no final da gravidez / no parto;
    • Se o tratamento for feito após as 24 semanas, muitas vezes o controlo principal é feito no parto (ou muito próximo dessa fase);
    • Importa sublinhar que, durante a gravidez, nem sempre há tempo para observar uma descida acentuada antes do nascimento. Por isso, a ausência de uma redução “de quatro vezes” do título não significa automaticamente falha. O que levanta mais suspeita é uma subida sustentada do valor, o que pode indicar reinfeção ou resposta inadequada.

     

    Em certas circunstâncias, considera-se que o tratamento pode não ter sido o suficiente para eliminar o risco para o bebé, sendo necessário vigiar e, às vezes, tratar o recém-nascido. Isto pode acontecer nas seguinte situações:

    • O bebé nascer em menos de 30 dias após o início do antibiótico;
    • Persistirem sinais clínicos de sífilis no momento do parto;
    • O título no parto ser quatro vezes superior ao valor registado antes do tratamento.

    Existem riscos relacionados com o tratamento de sifilis na gravidez?

    Em geral, o benefício do tratamento supera claramente os riscos, porque o objetivo é proteger a mãe e o bebé. Ainda assim, há efeitos e situações que explicamos sempre:

    Reação de Jarisch-Herxheimer

    Pode surgir nas primeiras 24 horas após iniciar penicilina (febre, arrepios, dores no corpo, mal-estar). Na segunda metade da gravidez, esta reação pode associar-se a contrações, diminuição dos movimentos fetais ou sinais de stress fetal, pelo que orientamos vigilância e procura de avaliação obstétrica se estes sinais aparecerem.

    Alergia e reações ao antibiótico

    Reações alérgicas verdadeiras são raras, mas possíveis. É por isso que, perante suspeita de alergia, planeamos confirmação/estratégia com segurança e, quando indicado, dessensibilização.

    Dor local e efeitos “esperados”

    A injeção pode ser desconfortável e pode existir dor local. Mesmo assim, não devemos adiar o tratamento quando está indicado. 

    Como prevenir reinfeção durante a gravidez e no pós-parto?

    Na gravidez, prevenir reinfeção é quase tão importante como tratar a primeira vez, porque uma nova exposição pode voltar a colocar o bebé em risco.

    Na prática, sugerimos focar em três pontos:

    • Tratar parceiro(s) e contactos de forma coordenada;
    • Evitar relações desprotegidas até terminar o tratamento e até haver orientação médica (em muitos casos, preservativo é recomendado durante este período);
    • Cumprir rastreios / controlo até ao parto e, se existir novo risco, repetir análises mesmo que já tenha sido tratado anteriormente.
    FAQs

    Perguntas frequentes

    Depende do estádio (sífilis recente vs. latente tardia / duração desconhecida) e do momento da gravidez. Após avaliação, definimos o esquema mais adequado e explicamos o calendário dose a dose.

    Na gravidez, sobretudo em esquemas semanais para sífilis tardia, atrasos importantes podem obrigar a repetir o esquema completo para garantir eficácia.

    Na gravidez, recomenda-se dessensibilização e penicilina, porque não existem alternativas comprovadas como equivalentes na prevenção de sífilis congénita.

    Existe risco de reação de Jarisch-Herxheimer, que pode desencadear contrações e stress fetal, sobretudo na segunda metade da gravidez. Por isso, orientamos sinais de alerta e quando procurar avaliação obstétrica.

    Muitas infeções são assintomáticas. Avaliar e tratar parceiro(s) é essencial para reduzir reinfeção e transmissão.

    Recomendamos avaliação médica se tiver teste positivo / duvidoso, contacto sexual de risco, sintomas compatíveis, ou se, após iniciar tratamento, surgir febre com contrações, diminuição dos movimentos fetais ou preocupação com o estado geral. 

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